sexta-feira, 15 de junho de 2018

CARTAS PARA ELA: CARTA PERDIDA II (EIS O QUE SOMOS)

Para Ela. Do GWT.

Estamos num feriado. Estamos num dia comum. Estamos juntos, afinal é o que importa.

Está de noite. E parece que a noite é inteira nossa, como se não tivéssemos que a compartilhar com o resto das pessoas no mundo. Como se fossemos os dois únicos seres vivos, os únicos dois corações pulsantes. Em nosso mundo. Um pedaço do Mundo. Ocultos pela noite. Pelas quatro paredes do quarto.

Abraçados pelo frio, acalentados um pelo outro. E nos aquecemos bem! Minha mão agarrada à tua mão, teu corpo debruçado sobre o meu corpo. Corações explodindo calor. Tanto desejo quanto ternura.

Duas estrelas dançando perdidas através do universo, dois amantes perdidos através do quarto, sob os lençóis.

Eis os nossos momentos juntos. Cada um dos instantes eternos em que perduram.

Eis o meu amor dizendo sim ao teu. Eis o teu amor dando sim ao meu.

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domingo, 3 de junho de 2018

CONTO - GOLPE FULMINANTE!

A lua pairava alta no céu de Hikari enquanto um aglomerado de estranhos se formou entre os galpões às margens do Rio Gwam. Ventava pouco e apesar da noite e da humidade nas docas, fazia um calor abafado. Estava escuro, havia poucos postes, afinal a reunião tinha que ser discreta aos olhos das pessoas comuns… E da Lei.

A comoção era formada por grupos de indivíduos distintos, membros das várias escolas de artes marciais espalhadas da cidade. Jovens, adultos e até mesmo algumas figuras conhecidas da velha guarda, entre mestres e veteranos casca-grossa. Apesar da multidão formada em grande parte por homens, haviam algumas mulheres também, cujos olhares e postura deixavam óbvias coragem e garra. Muitos diriam que bem mais do que a maioria dos valentões presentes alí, que gostavam de chamar a si mesmos de lutadores.

As mistura de culturas era evidente. Brancos, negros, indígenas, nipônicos… Ricos da elite urbana e moradores da periferia. Rodas de capoeira, dojos de caratê e tae kwon do, academias de boxe e muay thai. Estranhos e figuras conhecidas se encontraram com todo o respeito ou desdém que deviam uns aos outros, num limiar pouco percetível entre ambos os sentimentos. Apesar daquela reunião demonstrar a pluralidade de Hikari, o evento que seria anunciado não se tratava de representatividade, e a troca de olhares pouco amistosos indicava um ambiente pouco propício para amenidades sociais.

Era uma noite de sussurros: segredos e rivalidades pulverizadas no ar.

Todas aquelas pessoas estavam alí pela convocação de um homem misterioso, mas com propósitos claros, suficiente para atiçar a curiosidade e a ambição.

O barulho alto de um portão pesado correndo por trilhos quebrou o suspense, atraindo a atenção dos presentes para a entrada de um galpão próximo. Um homem branco, forte, de cabelos raspados, jeans e camiseta, empurrava o portão do galpão 95. Depois chamou todos com um assobio e um aceno.

Havia pouca luz e o lugar estava vazio, exceto pelo palco improvisado montado no centro, onde um homem magro usando suspensórios e chapéu estava esperando. Aguardou silenciosamente enquanto todos entravam e se posicionavam em volta.

Ao passar pelo portão, algumas pessoas acharam que o homem na entrada era familiar… Achavam que tinham o visto na TV ou na internet. Outros entre os veteranos o reconheceram. Frederico Ferreti estava ali em pessoa, um lutador com renome, que havia disputado vários cinturões nacionais, mas que há alguns anos sumiu repentinamente dos circuitos de lutas e da mídia.

O homem de suspensórios esperou que Ferreti fechasse o portão e se juntasse a ele, de braços cruzados e em silêncio, como um guarda-costas. O homem tirou o chapéu, mostrando o rosto esguio e a testa comprida. Sob a atenção de todos, pigarreou.

— Boa noite, senhores. — Sua voz saiu alta e manhosa, num sotaque carioca carregado. — Tenho muita satisfação de estar aqui entre vocês, os lutadores mais promissores de Hikari, nesse momento de grandes oportunidades para todos nós.

Os ouvintes se entreolharam. Quem seria o desconhecido? Alguns tinham uma ligeira desconfiança de quem se tratava, mas mantiveram silêncio e atenção.

— Agradeço por terem aceitado meu convite e aparecerem nesta reunião. Estou aqui para anunciar para vocês sua grande chance de participar de um grande evento, onde poderão mostrar suas habilidades num torneio que vem revelando grandes lutadores em todo país! Muitos de vocês não devem conhecer, mas aposto que alguns já ouviram falar, mas não imaginavam que fosse mais do que um boato instigante. E eu estou aqui para comprovar, esse torneio existe! Apesar de discreto, revelado apenas para indivíduos especiais, como vocês que estão reunidos aqui, nesta noite.

Um calafrio correu pela espinha dos lutadores mais jovens. Estavam empolgados com todo aquele clima de que algo grandioso e secreto estava acontecendo.

— Guerreiros de Hikari! Nos próximos meses, fortaleçam corpo, mente e espírito, pois sua coragem e poder de luta serão postos à prova, este é o chamado para o torneio Golpe Fulminante!

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segunda-feira, 28 de maio de 2018

PERFIL NO DEVIANTART


Saudações joviais.

Acho até engraçado como a escrita progressivamente foi substituindo a minha primeira manifestação artística: o desenho.

Fruto do interesse nas histórias em quadrinhos, quando conheci personagens como Hulk, Wolverine e Superboy, e tive contato com o trabalho de artistas como John Byrne, Tom Grummett e Marc Silvestri, meus preferidos na época, durante os meados dos Anos 90.

Infelizmente não explorei devidamente o talento e o tempo que poderia ter dedicado à atividade, mas com a vontade e o esforço para desenvolver minha escrita, também veio a vontade de resgatar minha habilidade nos desenhos, mesmo que timidamente.

Percebi que alguns resultados poderiam ser publicados em algum lugar, além do blog, então resolvi criar uma conta na plataforma social DeviantArt, voltada para este tipo de publicação.

Então é isso, quem quiser espiar e acompanhar minhas desventuras nos traços podem seguir este link, e claro, é sempre bom deixar comentários e compartilhar com os conhecidos, se o trabalho merecer.

Bons Ventos.

MIKE WEVANNE "MWXS"

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quarta-feira, 2 de maio de 2018

DIÁRIOS DE ÓCULOS: O NORTE SE LEMBRA (E A INTERNET TAMBÉM)

As pessoas podem esquecer.

Mas a Internet se lembra.

MWXS

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domingo, 29 de abril de 2018

O BLUES DE NOVA BABEL: TRÊS CARTAS (PARTE 1)

Salto do ônibus quando chego no centro da cidade. A noite já avançou algumas horas, deitando seu manto escuro e frio sobre Nova Babel. Embora hoje em dia ninguém mais perca tempo olhando pras poucas estrelas que resistem entre as nuvens escuras, eu dou uma boa olhada e deixo escapar um sorriso de satisfação, como se estivesse espiando algo secreto e especial. O céu noturno é uma bela pintura, oculta das pessoas comuns, ocupadas demais, apressadas demais para olhar.

Deixo a umidade entrar nos meus pulmões e sigo adiante. As ruas do Centro se insinuam, flertando e oferecendo prazer, usando música, sexo e álcool para chamar atenção. As ruas não se importam com sua classe social, com a cor da sua pele ou sua maldita religião. A cidade é uma pregadora profana tentando levar qualquer um à perdição.

Os becos são tomados pelo assobio distante de músicas, vindas dos bares espalhados pelo bairro, ecoando como o canto de sereias, sibilando abafado entre as ruas desertas, seduzindo os desesperados. Uma brisa gelada toca a minha pele, eriçando pelos e desejos. Puxo um cantil do bolso e entorno um bom gole de cachaça que pode até espantar o frio, mas mantém os pelos e desejos eriçados.


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Quando chego ao Última Chance, o bar está cheio de gente. Pessoas buscando prazer no fundo de um copo de cerveja ou na companhia de alguém especial. As pessoas sempre esperam encontrar alguém especial, quando provavelmente vão se entregar para a companhia mais banal. Mas a esperança, como dizem, é a última que morre.
Mas essa tênue esperança é o que faz florescer a vida noturna da cidade. Talvez afinal as pessoas encontrem o que buscam. Talvez precisem de mais do que um copo, talvez precisem de mais de uma companhia. A esperança é uma maldita lazarenta que não se fode antes de te fuder. Esta vai ser uma longa noite…

A banda no palco toca um blues chorado, bem adequado para embalar o estado de espírito do público. Eu vejo alguns rostos conhecidos e os cumprimento com uma simpatia conveniente, porque em algum momento da noite o bar vai fechar, mas a madrugada seguirá adiante e nunca se sabe quem serão os camaradas que vão continuar a longa jornada até o amanhecer. Quando chego ao balcão oferecendo um sorriso pros atendentes, peço três doses de pinga. Não sou exatamente um fã de cerveja, então preciso amaciar o paladar para fazer descer o resto do molha goela que virá depois. Faço uma fila com os copos e entorno as doses uma depois da outra. A cachaça barata desce queimando a garganta e o cérebro, mas eu fico firme. O calor chega ao estômago, se espalha pelo resto do corpo e me traz um breve bem estar. E eu sorrio, como se tivesse feito algo secreto e especial.

Essa vai ser uma longa noite.

O casal detrás do balcão são os donos do lugar, acham graça da pequena cerimônia que eu fiz para beber. Ele é um espanhol com sotaque carregado e que geralmente fala rápido demais para que eu entenda alguma coisa com todo o barulho em volta. Ela, sócia e namorada, uma morena linda com um sorriso largo e cheio de vida. Não duvido que seja o responsável por cativar muitos dos frequentadores mais assíduos do Última Chance. Eu peço mais uma dose, mas deixo o copo e o meu estômago descansarem por alguns minutos.

Estou cercado por uma confusão de som e rostos. O ambiente toma conta dos meus sentidos. Está quente. O calor das pessoas se amontoando e o barulho fazendo o ar reverberar. Vibrar. Ouço gargalhadas. E conversas fúteis, embora a penumbra torne tudo mais misterioso, mais interessante. O bar está cheio de gente com histórias pra contar, e mulheres bonitas demais para não arriscar um flerte. Foi o que resolvi.

Vim ao Última Chance em busca do prazer volúvel proporcionado pelo álcool: afogar frustrações e fantasmas. Arrancar do cérebro as lembranças de um relacionamento que terminou há tempo demais para dizer que existiu mas que ainda me roubava algumas noites de sono, me fazendo se revirar na cama e encarar por horas as rachaduras no teto do quitinete barato que eu chamo de lar. Doce lar. Então vim para isso, esquecer.


Foi o que eu resolvi.

Jogar algumas virtudes para debaixo do tapete numa noite perdida. Encher a cara e mentir o suficiente, ou ser enganado o suficiente, até levar alguém para fuder num motel fuleiro qualquer. Deve resolver meu problema. Ao menos por essa noite não vou encarar nenhum teto riscado.

Mas first things first. Eu me concentro na primeira parte do plano: beber até não me importar em seguir os passos seguintes. Bebo a dose de cachaça que estava me esperando e encomendo a próxima. Sinto um prazer doce ao amaciar uma parcela de bom senso.

Essa vai ser uma longa noite.


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quinta-feira, 12 de abril de 2018

OS DIÁRIOS DE ÓCULOS: ESQUINAS

Meu espírito anda tão à flor da pele que eu crio um romance diante de qualquer brisa de beleza. Acho que a solidão tem sido minha companhia por tempo demais.

GWT

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